havemos de falar da chuva que se antecipa ao nascimento.
também do sopro que amanhece os nomes nos dentes
quando a inutilidade das mãos certifica a transparência da sombra.
não foi ontem que o sol ardeu a última árvore
a luz ainda te esmaga num esplendor de delírio
se uma borboleta te eleva ao pensamento.
então a grande copa vulto que se assombra de recolhimento
desobedece ao silêncio que gravita sob os séculos da minha boca.
dir-me-ás que o tempo é uma água que retalha a memória da luz
mas o olhar não se esgota se existimos com crateras inflamáveis junto ao sono.
e a água meu amor é o idioma que fustiga o sangue
quando uma flor negra ensaia o poente contra o chão.
ainda não sabes mas os dias são uma árvore que nos prolonga na dor
desde a comoção da primavera até ao joelho do medo.
e tudo o que se agita entretanto é movimento impossível contra o archote da morte.
então este lugar onde os lobos avançam para um coração assim exposto
perverso fado no absoluto flagelo de esgotados paradigmas
assim a árvore um corpo inteiro lançado à linguagem do rio.
e para sempre este nó de pequenas sílabas: o teu nome preso aos dentes
como se dele extraísse o mais humano ângulo da sombra.
ft: katia ch
